Todos por uma Causa

Rui Mesquita Cordeiro | rui@cidadania.org.br
Recife, 31 de Janeiro de 2003

No mundo de hoje, querer (e poder) se dedicar a uma causa de interesse coletivo é uma tarefa quase que impossível, devido a uma série de circunstâncias e fundamentos que modelam tanto o nosso comportamento enquanto indivíduos, quanto o comportamento de nossas sociedades, especialmente no mundo ocidental, desde vários séculos.

No mundo de hoje crianças nascem e, na medida em que crescem e passam a ganhar consciência das coisas ao seu redor, podem ser apresentadas ao mundo de diferentes maneiras. E dependendo de como este mundo lhes sejam apresentadas elas podem acreditar cegamente naquilo, sem imaginar ou vislumbrar nenhuma outra forma, lógica ou relação possível.

Mas a natureza humana foi concebida de forma muito sábia, e não poderia deixar de possuir algum tipo de mecanismo que fosse um contraponto a tal situação. Nossa capacidade de se inquietar frente às contradições do mundo, que dia a dia nos é apresentado, pode representar tal mecanismo, apesar de nem sempre ela ser compreendida como tal.

E quando estas inquietações de mundo se aliam a uma crença, uma fé interior, de que vivemos em coletividade e de que somos capazes de transformar as relações sociais ao nosso redor, podemos iniciar um caminho, possivelmente sem volta, em direção a construção de nossos projetos de vida, com uma visão coletiva e fincada em valores, princípios e lógicas menos egoístas e mais solidárias.

Neste início de século o mundo caminha provavelmente para uma nova bipolarização internacional de forças, bem diferente daquela existente no período entre as duas grandes guerras mundiais e a década de 1980, onde encontrávamos de um lado a liderança da União Soviética e do outro a dos Estados Unidos. Agora, de um lado teremos os “ricos”, que possuem elevados níveis de consumo, tecnologia e conforto. Do outro lado os “pobres”, que ficam excluídos, ou à margem, da nova ordem econômica mundial. Sinais deste novo tipo bipolarização internacional são vistos tanto nos grandes atentados terroristas deste início de século como, de um outro lado, na criação do Fórum Social Mundial[i]de Porto Alegre, no Brasil, em contraponto ao Fórum Econômico Mundial[ii]de Davos, na Suíça.

Com o fim da União Soviética e a queda do muro de Berlim os Estados Unidos, e sua lógica econômico-financeira de individualismo, competição e acumulação, passaram a exercer uma influência internacional quase que unilateral durante toda a década de 1990, o que gerou uma série de mudanças de comportamento nas pessoas, especialmente naquelas que vivem no mundo ocidental. Em muitos países estamos deixando de ser tratados – inclusive legislativamente – como seres humanos ou cidadãos para sermos tratados simplesmente como consumidores. E este fato por si só já mostra muita coisa, como reflexo desta série de circunstâncias e fundamentos que passam a modelar o nosso comportamento na sociedade. Outro reflexo é o fato de que estatísticas de grandes organizações financeiras internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, mostram que mais de 70% dos recursos produzidos no planeta são consumidos por menos de 20% da população mundial, justamente aquela que teve a sorte de ter nascido em países ditos desenvolvidos.

Com este pano de fundo, onde nós seres humanos passamos a estar a serviço desta lógica econômica (e não oposto), acentua-se a assimilação de valores dessa economia mundial no dia a dia das pessoas. Valores como o individualismo e o egoísmo. Valores como o consumismo desenfreado, e até desnecessário. Valores como a competição, inclusive entre pessoas. Valores como o materialismo e os de acumulação de bens e recursos, em detrimento ao compartilhamento. Ter passa a ser mais importante do que ser. E muitas pessoas tentam ter sempre mais na tentativa desesperada de ser alguém.

Neste cenário torna-se realmente mais difícil que as pessoas possam despertar para questões de interesse coletivo, uma vez que encontramos muitas barreiras de valores nas nossas relações sociais. Isso ocorre em vários locais, de diferentes formas. Na família onde nascemos, na comunidade onde vivemos, na escola onde estudamos, na organização onde trabalhamos, nos meios de comunicação aos quais estamos expostos. Em todos estes meios sociais os valores econômicos estão cada vez mais enraizados no cotidiano das pessoas. E mesmo que algumas pessoas venham a despertar para questões coletivas, ainda assim é extremamente difícil se sustentarem ou se manterem neste ambiente de valores tão contraditórios, por causa da enorme pressão contrária que poderão receber na família, na comunidade, na escola, no trabalho e dos meios de comunicação.

E é inicialmente na família, e também na escola, que muitos dos nossos valores são desenhados. A família é, de fato, o nosso primeiro grande espaço de convívio social, onde, após nascermos, travamos nossos primeiros contatos com o mundo. E à medida que vamos crescendo, deixando de ser crianças e passando a ser adolescentes, jovens e adultos, vamos ganhando mais e mais consciência do mundo e suas relações. Vamos sendo, aos poucos, apresentados a “tudo” o que há. E geralmente o mundo nos é apresentado da forma com que aqueles que nos são mais próximos e queridos o compreendem. Se nascermos numa família católica, por certo vamos, pelo menos de início, crer em Jesus. O mesmo se nascermos numa família budista – seguindo os ensinamentos de Buda. Se nascermos numa tribo esquimó, vamos ser apresentados ao mundo de acordo com os valores esquimó. Se nascermos numa tribo indígena, de onde quer que seja, o mesmo. Esta é uma relação cultural o tanto quanto conservadora, e quanto mais conservador for este nosso aprendizado sobre o mundo, menos nós estaremos abertos e receptivos para receber e entender outras concepções, visões e valores de mundo.

Este, por mais estranho que possa parecer, é um grande fator que nos faz, muitas vezes, aceitar as coisas como elas aparentam ser, sem imaginar ou vislumbrar nenhuma outra forma, lógica ou relação possível. Isso faz com que muitas pessoas que nasceram, principalmente no mundo ocidental dos últimos séculos, possam assimilar e aceitar com tanta facilidade valores como o individualismo, o egoísmo, o consumismo, a competição, o materialismo e a acumulação, uma vez que nasceram num ambiente onde eles estão cada vez mais presentes.

Mas existem fatores intrínsecos a própria natureza humana que pode nos despertar certas incomodações frente a uma ou outra relação ou a certos valores, conceitos ou fatos, principalmente quando nos vemos em contradição entre aquilo que sentimos com aquilo que presenciamos. São as inquietações que surgem sem ser programadas, e que se apresentam como um contraponto àquele conservadorismo pelo qual somos geralmente apresentados ao mundo, fruto das condições culturais que nos cercam.

Estas inquietações, se levadas a cabo, podem nos levar a descobrir novos caminhos e alternativas, novas perspectivas de vida, novos rumos para nossa própria vida. Descobrir novas pessoas, novas experiências, novas relações, novas lógicas, novos valores, e até novas inquietações. E são estas mesmas inquietações que estão bastante presentes na vida daquelas pessoas que se vêem dedicadas a causas de interesse coletivo.


[i]Fórum Social Mundial: www.forumsocialmundial.org.br ou www.worldsocialforum.org

[ii]Fórum Econômico Mundial: www.worldeconomicforum.com ou www.weforum.org

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