O que é uma Incubadora Social

Rui Mesquita Cordeiro | rui@cidadania.org.br
Recife, 04 de Junho de 2003

Certa vez, entre outubro e novembro de 1998, eu estava participando de um curso promovido pela OBJ (Organização Brasileira da Juventude) e pela Fundação Mudes, na cidade do Rio de Janeiro, de Formação de Técnicos em Políticas Públicas de Juventude. Este curso foi muito inspirador para mim, particularmente, e para o que em breve viria a ser o Instituto Academia de Desenvolvimento Social[1], uma ONG que ajudei a fundar em 1999 na cidade do Recife. Foi durante este curso ocorrido no Rio que me veio pela primeira vez em mente a idéia de uma incubadora social.

Mas o que viria a ser essa tal incubadora social? Para tentar decifrar este conceito, que pode ter muitas e distintas interpretações, temos que entender primeiro as origens das primeiras incubadoras, as incubadoras de empresa, onde tudo começa. O conceito de incubadoras de empresas tem sua origem na década de 1950, nos EUA. Estas incubadoras de empresas são entendidas como organizações que disponibilizariam um conjunto de facilidades no qual se localizaria certo número de pequenos novos negócios, que compartilhariam serviços, equipamentos e espaços, recebendo suporte da própria incubadora em assessoria, treinamento e acesso a outros recursos e informações que normalmente não obteriam se estivessem iniciando suas atividades soltas no mercado, extremamente competitivo e voraz.

Estas incubadoras de empresas ganharam visibilidade pública na década de 1980, tanto nos EUA como também aqui no Brasil, onde a partir de 1984 as primeiras incubadoras de empresas foram incentivadas e fortemente apoiadas por centros universitários de localidades que possuíam boa infra-estrutura científica e tecnológica, disponibilidade de recursos humanos qualificados e proximidade de pólos industriais, tais como São Carlos/SP, Campina Grande/PB, Florianópolis/SC e Rio de Janeiro/RJ. Com o passar do tempo as incubadoras de empresas passaram a se diferenciar entre si e a assumirem diferentes designações, como por exemplo: incubadora de empresas tradicionais, incubadora de empresas de base tecnológica e incubadora de empresas mistas.

Durante a década de 1990 o modelo de incubadora de empresas sofre sua primeira grande mutação. Isso se dá quando surgem no Brasil as primeiras incubadoras de cooperativas populares, em 1995, no Rio de Janeiro. O processo de incubação é parecido, porém as “empresas” incubadas deveriam ser construídas a partir do modelo cooperativo e associativista, e extensivo aos segmentos populares de baixa renda. Essas novas incubadoras surgem em meio a um contexto de exclusão e de um nível crescente de desemprego e desmantelamento das antigas formas de proteção ao trabalhador, no qual o Brasil se encontrava inserido nesse período. Neste sentido o cooperativismo, numa lógica de economia solidária, ganha força como uma alternativa ao emprego formal em crise, numa ideologia específica de trabalho coletivo e de autogestão, sendo um verdadeiro contraponto à lógica e aos meios de produção capitalistas, nos quais se encaixam perfeitamente as primeiras incubadoras de empresas.

A primeira incubadora de cooperativas criada no Brasil, em 1995, foi a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), da COPPE/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), desenvolvida a partir de discussões realizadas em redes de discussões universitárias para criação de propostas de trabalho de geração de emprego e renda[2]. Atualmente existem dezenas, ou mesmo centenas, de incubadoras dessa natureza espalhadas por todo o Brasil e até em outros países e continentes.

Até então, eram esses os dois grandes modelos de incubadoras vigentes, o de incubadora de empresas e o de incubadora de cooperativas. Dentro de duas lógicas antagônicas de desenvolvimento econômico, a primeira permeada por valores da economia capitalista e a segunda por valores da economia solidária.

E o que o conceito de incubadora social tem haver com tudo isso? O fato é que o conceito de incubadora social foge de um modelo de desenvolvimento econômico apenas. O conceito de incubadora social diz respeito a um modelo de desenvolvimento social, ou seja, um modelo de desenvolvimento da sociedade civil, e das suas relações sociais. Seria então uma segunda grande mutação do modelo de incubadoras surgido na década de 1950. Seriam incubadoras que não incubariam organizações de fim produtivo e econômico, como empresas e cooperativas, por exemplo, mas sim organizações sem fins lucrativos, surgidas da própria sociedade civil e de seus movimentos sociais, tais como ONGs (organizações não governamentais), associações de bairro, entidades representativas, projetos de cunho social, cultural ou ambiental, dentre outras. Organizações estas que tem um papel fundamental na organização de uma nova ordem mundial que passa a se configurar neste início de século. Organizações que, na sua maioria, agem localmente, mas muitas vezes atuam de forma integrada com outras organizações da mesma natureza, em rede, atuando nos mais diversos campos de intervenção social: o indivíduo, a família, o bairro, a cidade, os grupos afins, as minorias, os excluídos etc., bem como também em campos de intervenção política e economia.

Trata-se então de um terceiro modelo de incubação. A incubação social, que desde aquele curso de Formação de Técnicos em Políticas Públicas de Juventude, feito em 1998 no Rio de Janeiro, a Academia de Desenvolvimento Social vem pesquisando, discutindo e experimentando, para que finalmente em julho de 2002, com apoio da Fundação W.K. Kellogg[3]e do SEBRAE[4], tenha sido lançada oficialmente, na cidade do Recife, a primeira incubadora social do Brasil, e do mundo, a Incubadora Social para Ação Jovem. O processo de discussão e experimentação que culminou na concretização da primeira Incubadora Social do país foi conduzindo em cima de vários conceitos e valores, além do conceito de incubação propriamente dito. Conceitos como os de sociedade civil, movimentos sociais, desenvolvimento social, gestão social, liderança, empreendedorismo social, protagonismo, juventude, inquietação e mudanças sociais, bem como valores como os de participação, solidarismo, coletivismo, cooperação, democracia, amor e paz também permearam, e continuam permeando, todo o processo.

A Incubadora Social para Ação Jovem visa apoiar jovens empreendedores sociais que buscam transformar a sociedade. Em janeiro de 2003 foram incubados os primeiros 16 projetos neste sentido. Neste modelo de incubação, grupos juvenis têm a chance de iniciar ou expandir suas propostas de intervenção social, cultural ou ambiental construídas a partir de uma base de legitimidade com o público alvo, e que não tenham caráter competitivo ou de fins lucrativos. O suporte oferecido a estes grupos vai desde um escritório completamente equipado para uso, por tempo determinado e compartilhado, do projeto, até um sistema de apadrinhamento, que envolve assessoria, acompanhamento e avaliação, passando capacitações em gestão social e estímulo à formação de rede. Tudo direcionado para que os projetos ou organizações incubados possam canalizar seus esforços na busca de provocar ciclos de mudanças sociais locais, se possível integrados numa proposta maior de desenvolvimento local sustentável, como uma verdadeira rede multidisciplinar.

Mas a verdade é que tudo ainda está muito embrionário. Inclusive a discusão sobre o conceito de incubadora social. Como dito inicialmente, o próprio termo pode ter muitas e distintas interpretações. E talvez o melhor a ser feito no momento seja uma ampla e vasta discusão sobre o conceito, a partir de diferentes atores da sociedade, como as próprias incubadoras já existentes (independente da sua natureza), as ONGs, os movimentos sociais, as universidades, os governos e outros, pois elas podem vir a ser um verdadeiro instrumento impulsor e catalisador do desenvolvimento social, tanto no Brasil como em outros países.


[1]Academia de Desenvolvimento Social: http://www.academiasocial.org.brinfo@academiasocial.org.br[2]PEREIRA, Almir Rogério, in “Aspectos econômicos das experiências de desenvolvimento local”. Pereira é Cientista Social e promotor de desenvolvimento econômico local do Instituto SERE.

[3]Fundação W.K. Kellogg: http://www.wkkf.org

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