Ana Angélica Rocha
angelica@cidadania.org.br
Recife, 07 de Janeiro de 2004
Em 1970, foi escrito um ensaio que destoa bastante da lógica comumente defendida pelos estudiosos de liderança, ou seja, de tornar a liderança mais útil para os profissionais da área de gestão. O autor desse ensaio apresenta uma lógica menos utilitarista e mais engajada com a realidade político e social do mundo contemporâneo. Robert K. Greenleaf – era um norte-americano, responsável por desenvolvimento e educação na AT&T – após sua aposentadoria iniciou uma segunda carreira como consultor de grandes organizações, escritor de livros, ensaios e artigos e também como palestrante.
Greenleaf passou a observar que um grande número de jovens protestava contra as instituições em seu país, principalmente as universidades. Começou a querer entender o porquê desse fato. Chegou a conclusão de que as organizações não estavam preparadas para servir à sociedade e que isso era reflexo de uma crise de liderança. Nessa época, ele escreveu o seu primeiro ensaio “A Liderança do Servidor” que até hoje influencia uma legião de pensadores.
Ele não escreveu um texto científico, na introdução faz questão de frisar que o servidor como líder é fruto da sua intuição e da sua maneira de pensar. Ressalta com bastante firmeza a importância de sabermos reconhecer os profetas contemporâneos. Pessoas que estão à frente de seu tempo – assim como ele – e ousam defender idéias novas capazes de transformar a realidade e torna-la mais justa e humana.
Neste ensaio, Greenleaf defende a idéia de que “um grande líder é, em primeiro lugar, um servidor”. Foi do livro de Herman Hesse – A Viagem Até o Oriente – que ele extraiu a essência de seus escritos sobre liderança. Esse livro versa sobre um grupo que empreende uma viagem mítica ao oriente. Leo – o protagonista da história – acompanha o grupo realizando as tarefas servis, mas também oferecendo suporte com seu espírito e suas canções.
Em um certo momento, Leo desaparece. O grupo se desintegra e não consegue concluir a viagem. Não conseguem realiza-la sem o apoio do servidor. Algum tempo depois um dos integrantes encontra Leo e descobre que ele era o titular de uma ordem religiosa, o patrocinador da viagem. Leo era na essência um servidor. A liderança lhe foi concedida. Poderia perde-la a qualquer momento, mas jamais perderia o sentimento de responsabilidade com os outros.
Sérgio Buaiz afirma que o servidor líder pode ser um ativista, um missionário que manifesta suas opiniões com fluência despertando crenças e talentos adormecidos. “Ele tem o brilho natural da paixão pela causa e contagia os outros com a sua coragem. Conquista o direito de liderar o grupo espontaneamente sem a necessidade de nenhuma disputa. Seu poder emerge da própria coerência, atitude e credibilidade ao longo do tempo”.
O servidor líder não se apega a posições formais. Ele tem consciência de sua importância para o grupo. Diferentemente da autoridade formal, ele não exerce um mandato passageiro ou vitalício. Sua influência é permanente e legítima na medida em que deixa um importante legado para as futuras lideranças. “O objetivo da liderança servidora é maior do que a própria existência do líder servidor. É contribuir com o sucesso da causa, hoje e sempre. Por isso, se alguém melhor preparado se apresenta para qualquer função, ele transfere seus poderes de bom grado. O projeto é comunitário e deve continuar também na sua ausência”.
É importante destacar que, de acordo com Greenleaf, o servidor líder é antes de tudo um servidor, como foi descrito na história de Leo. O desejo de servir vem antes. Depois, através de uma escolha consciente, decide conduzir. Existe uma enorme diferença entre aquela pessoa que é líder primeiro e a que é servidor primeiro. Essas são as duas extremidades de um contínuo. E entre elas existe a infinita variedade da natureza humana.
A principal diferença entre aquele que é líder primeiro e o que é servidor primeiro é o impacto de sua liderança na vida das pessoas. Os servidores sempre se perguntam: os que são servidos crescem como pessoas? E como o servidor poderá saber que esse será o resultado? Greenleaf afirma que jamais se tem essa certeza. Isso faz parte do dilema humano. O servidor escolherá uma hipótese a partir de estudos e experiências. Ele não tem como provar que essa é a melhor hipótese, mas ele acredita que essa é a melhor que se pode vislumbrar no momento de fazer a escolha.
Greenleaf é bem enfático ao defender que o servidor se diferencia das pessoas de “boa vontade ou bem intencionadas” porque ele atua sustentado em suas crenças e valores. Sua visão otimista vai muito além das outras e motiva quem o acompanha. Muitas pessoas podem ver os servidores líderes como ingênuos. Ele acredita com tanta convicção em seus ideais que pode soar utópico para alguns.
No entanto, se a palavra utopia for pensada em seu sentido original ( ou do advérbio de negação, topos – lugar = não-lugar), como o neologismo criado por Thomas Morus (1477 –1535) para intitular a sua principal obra, pode-se dizer que o servidor líder busca o utópico. Não o utópico com o significado distorcido que possui atualmente, como aquilo que é impossível ou próprio das pessoas que vivem fora da realidade. Mas sim como a construção possível de uma outra realidade. A superação da injustiça e da desigualdade existentes atualmente e a construção de uma sociedade mais humana. “A verdadeira utopia não alimenta concepções nem projetos reformistas, paliativos e anestésicos para os mecanismos reprodutores da desigualdade e da injustiça” (Cattani, 2003).
De acordo com Greenleaf, uma das principais características da liderança legítima é a capacidade de identificar o caminho com mais clareza do que os outros e a coragem de aponta-lo aos demais. O verdadeiro líder atreve-se a indicar o caminho a ser seguido e tem a coragem de ir à frente conduzindo o grupo ao alcance do objetivo pretendido.
Esse objetivo, para o servidor, é visto como o “grande sonho”. Um conceito visionário que excita a imaginação e desafia as pessoas a trabalharem por algo que ainda não sabem fazer; algo que os deixa profundamente orgulhosos e confiantes à medida que avançam. “Quase nada acontece sem um sonho. E para que algo grande aconteça, deve existir um grande sonho. Por trás de um grande êxito, encontra-se um sonhador com grandes sonhos. É preciso muito mais que um sonhador para que se converta em realidade. Mas o sonho deve existir em primeiro lugar” (Greenleaf, 1970).
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