Visões e Crenças sobre Liderança

Ana Angélica Rocha
angelica@cidadania.org.br
Recife, 27 de Abril de 2004

Dentre as ações desenvolvidas pela Academia de Desenvolvimento Social para apoiar o movimento juvenil, uma tem como objetivo fortalecer a capacidade de liderança de grupos juvenis que estejam desenvolvendo propostas de mudança social. Trata-se do nosso Programa de Liderança. O processo de concepção desse programa está sendo extremamente rico e desafiador, pois além do planejamento, estamos realizando algumas discussões sobre a temática liderança. Neste texto estaremos compartilhando um pouco das nossas reflexões sobre esse assunto, sem a pretensão de apresentar uma verdade absoluta, mas sim com o desejo de contribuir com mais um ponto de vista para a questão.

Começamos a ter contato com esse tema ainda na universidade, no curso de Administração. As discussões e os textos de referência eram fortemente marcados por uma abordagem individualista. A liderança como um dom que apenas alguns poucos privilegiados possuem e que, muitas vezes, é utilizada apenas para se atingir objetivos privados. Além disso, o estudo está baseado em exemplos de grandes personalidades da história o que faz com que pessoas comuns não consigam se ver exercendo esse papel e sintam um enorme distanciamento em relação ao assunto. Muitos desses indivíduos que têm um grande potencial de inspirar e mobilizar pessoas para provocar mudanças não conseguem se ver como lideranças e ficam até chocados quando são identificadas como tal, pois acham que isso não faz parte da sua realidade.

Percebemos a liderança como algo que faz parte do nosso dia a dia. Qualquer ser humano pode exercer esse papel com maior ou menor intensidade. Acreditamos que a liderança é um processo de influência e mobilização de pessoas para agirem em conjunto em prol de algo comum. Logo consideramos que a liderança:

ü      É uma condição e não um estado permanente- as pessoas estão líderes em determinadas situações e essa liderança é fortemente influenciada pelo contexto.

ü      Não é uma característica inata- os seres humanos não nascem líderes; desenvolvem essa capacidade ao longo de sua vida.

ü      É algo que vem de dentro para fora– impulsionado por inquietações vinculadas à história de vida do indivíduo.

ü      É legítima– está relacionada a um profundo desejo de provocar mudanças na realidade, sustentada por crenças e valores nobres e não por interesses pessoais por poder e recompensas materiais.

Esses aspectos caracterizam um conceito muito especial sobre liderança: a Liderança Servidora desenvolvida por Robert K. Greenleaf, um norte-americano em 1970. Segundo Greenleaf, as verdadeiras lideranças são antes de tudo servidoras. O desejo de servir a uma causa vem primeiro. Depois, a partir de um desejo consciente há a decisão de conduzir. Existe uma enorme diferença entre aquela pessoa que é líder primeiro e a que é servidor primeiro. Essas são as duas extremidades de um contínuo. E entre elas existe a infinita variedade da natureza humana.

A opção pela liderança é algo que parte do indivíduo e de forma natural essa pessoa inspira outros a abraçarem a causa junto com ele. Muitas vezes encontra pessoas que também estão inquietas. Isso tudo fortalece a crença de que é bem mais fácil mudar a realidade atuando com um grupo de pessoas que compartilham do mesmo ideal. Por esse motivo, acreditamos que a liderança deve ser trabalhada em duas dimensões: a do indivíduo e a do grupo.   Indivíduos que irão inspirar outros a atuarem em grupos que, por sua vez, irão liderar importantes processos de mudança.

O nosso programa de liderança está sustentado nessas crenças. Logo, para nós, fortalecer a capacidade de liderança de grupos juvenis significa:

8      Estimular os indivíduos a refletirem sobre a sua história de vida. Buscar um autoconhecimento. Entender o que os inquietam e o que os movem a querer liderar processos de mudança. Refletir sobre assuntos como liderança, poder, ética. Auxiliar no desenvolvimento de habilidades de comunicação a fim de conseguirem expressar com clareza e firmeza os seus sentimentos e idéias.

8      Estimular o grupo a refletir sobre o seu propósito. Apóia-lo para que seus integrantes tenham uma consciência coletiva sobre a sua razão de ser. Provocar a reflexão sobre o que é um grupo e o que significa trabalhar em equipe, como lidar com os conflitos dentro do grupo, desenvolver habilidades de negociação e capacidade institucional.

8      Estimular o grupo a refletir sobre o seu significado e importância na sociedade. Entender o contexto sócio, político e econômico no mundo e no Brasil atualmente. Discutir políticas publicas e movimentos sociais. Estar mais consciente da realidade que o cerca a fim de provocar impactos mais efetivos com a sua atuação.

Portanto, para a Academia, fortalecer a capacidade de liderança de grupos juvenis significa apoiar o seu processo de consolidação e de instrumentalização. Para que o resultado do trabalho do grupo seja bem maior que as ações isoladas de seus integrantes e que, conseqüentemente, haja um compromisso consciente entre os indivíduos, com o grupo e com a proposta.

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