Rui Mesquita Cordeiro | rui@cidadania.org.br
Recife, 24 de Março de 2005
Tudo o que tenho para falar sobre este tema é fruto de minha experiência pessoal, como jovem militante em busca de mudanças sociais, que faz parte de um grupo juntamente com outros jovens, na Academia de Desenvolvimento Social. Estas visões não representam uma verdade absoluta, mas sim uma experiência e uma percepção dos fluxos e das ações juvenis. Que sirvam então de provocação e reflexão!
Uma grande dúvida paira no ar. Existe de fato um movimento juvenil? Essa é sem dúvida uma pergunta que não quer calar, na boca, na mente e no coração de muita gente no Brasil.
Para responder a esta pergunta, sugiro que partamos não de conceitos teóricos sobre o que é ou o que deixa de ser movimento social, segundo autores clássicos ou contemporâneos. Sugiro que partamos da observação da realidade. No meu caso específico, parto também como observador ativo, envolvido na questão, e não como um observador passivo, externo ou isento a questão. O envolvimento na base da juventude é algo fundamental para respondermos a esta pergunta, se não correremos o risco de responder com base em conceitos e realidade não juvenis.
Assim sendo, considero que o movimento juvenil é simplesmente um fenômeno social a ser constatado na nossa sociedade. É inegável a sua existência e a sua manifestação nos mais diferentes ambientes e ocasiões. O importante é a compreensão da natureza deste fenômeno.
São inúmeros os grupos formados por jovens. Surgem na absoluta maioria dos casos de forma espontânea, impulsionados geralmente por uma vontade de fazer algo em conjunto. Algo que pode estar relacionado a questões tanto mais efêmeras e pontuais, para as quais aparecem e desaparecem grupos juvenis todo o tempo, como também a questões mais duradouras, geralmente na busca de transformar ou mudar relações ou problemas nos quais estes jovens que se organizam enfrentam e se inquietam no seu dia a dia, formando grupos e organizações juvenis mais sólidas.
Quem ainda estiver tentando responder a questão sobre a real existência de um movimento juvenil, pela persistência de uma observação conceitual ou acadêmica, tentando identificar qual é a identidade comum deste movimento, ou qual a causa real que o une, ou qual a sua proposta de sociedade, tente perceber que assim como a juventude traz o inovador, o diferente, o contraditório, o complexo à sociedade, a discussão deste conceito deve também ser feita de maneira inovadora, diferente, contraditória e complexa.
Será que não podemos ver a juventude sem paradigmas antigos? Por que precisamos nos prender ao conceito acadêmico para responder se existe um movimento juvenil? E até mesmo os textos acadêmicos, em mais uma contradição inovadora e complexa, podem nos ajudar a compreender isso! Vejamos o que diz Alain Touraine[1], em artigo publicado na Revista Ibero-americana de Juventude:
“A juventude não é uma categoria social, mas sim uma construção cultural, uma parte da imagem que a sociedade tem de si mesma. Por um lado, se vê os jovens como sujeitos dinâmicos e criativos, no centro do processo de modernização; mas por sua nvez, os estigmatizam como elementos marginais e até perigosos. A juventude é, por sua vez, o ‘porvir’ e a ‘ameaça’.”
A juventude é um retrato da sociedade. Tão complexa e tão dinâmica como a própria sociedade. Questionar a capacidade da juventude se organizar espontaneamente e a existência de um movimento juvenil é também cair no equívoco de se questionar a capacidade de se organizar da própria sociedade e a existência de seus movimentos socais.
Avançando na reflexão, gostaria de convidar a todos para refletir sobre o tema agora a partir de uma outra questão. O que busca este movimento juvenil?
Aqui temos que ter cuidado para não responder de imediato que este movimento busca apenas lutar pelos direitos da própria juventude. Duas coisas parecidas, mas diferentes, precisam ser diferenciadas: movimento pela juventude e movimento de juventude.
Existe um movimento que lute pela juventude e seus direitos? Quem faz parte deste movimento pela juventude? Existe um movimento de juventude? Quem faz parte deste movimento de juventude? Como diferenciar uma coisa da outra, reforçando ambas identidades e gerando cooperação?
O movimento pela juventude talvez seja mais recente, pois começa a ganhar corpo no Brasil logo após os avanços e as conquistas do Estatuto da Criança e do Adolescente, no início da década de 1990.
Já o movimento de juventude é bem mais antigo. Tão antigo quanto à própria humanidade. Mas só passa a ser notado, ou diferenciado, à medida que a perspectiva de vida, a longevidade, da população aumenta. Poderíamos dizer que antes tudo era movimento social. Hoje diferenciamos um pedaço deste movimento da sociedade como movimento de juventude.
O movimento pela juventude talvez possa vir a se enquadrar melhor nas definições acadêmicas sobre movimentos sociais. A identidade de quem dele faz parte e a sua causa são mais claras e definidas. Trata-se de uma grande articulação, formada não apenas por jovens, mas também por outros atores interessados, que lutam pela juventude e seus direitos.
O movimento pela juventude:
- Não é restrito à própria juventude;
- Possui maior unidade e objetivo comum;
- Luta pelos direitos da juventude e pela formação e transformação dos jovens;
- Ainda herda um forte traço de relação intergeracional no estilo educador-educando.
Um fato interessante, mas também inovador, contraditório e complexo, é o fato de que não é a maioria dos jovens que se engaja nas lutas pelos seus próprios direitos enquanto jovens. Em compensação, talvez uma quantidade maior de jovens esteja engajada em outras lutas e em outras áreas. Parece que a quantidade absoluta de jovens engajados e organizados em lutas sociais diferentes das lutas pelos direitos da juventude é maior do que a quantidade de jovens engajados e organizados por lutas sociais da “classe” juvenil.
Essa percepção pode nos ajudar na compreensão do que seja o movimento de juventude, que como dito anteriormente, é parecido, mas diferente, de movimento pela juventude.
O movimento de juventude é a essência maior e principal do movimento juvenil. Um movimento heterogêneo, que luta por tantas causas quanto luta a própria sociedade. A diferenciação dos movimentos em geral da sociedade do movimento de juventude está na sua forma e no seu conteúdo.
O movimento de juventude:
- É um movimento de jovens organizados, de grupos e organizações juvenis;
- Possui diversidade, pluralidade e heterogeneidade na sua composição;
- Quando se une, une-se pelos desafios comuns que enfrentam;
- Possui diferentes naturezas e diferentes causas;
- Possui uma luta comum ampla, por mudanças na sociedade.
Neste sentido o movimento de juventude luta por várias questões. Existem os que inclusive lutam pela própria juventude, assim como existem outros que lutam pelo meio-ambiente, por uma nova ética na comunicação, pelos Direitos Humanos, pela distribuição de renda, pelo trabalho, por equidade social, pelos direitos da mulher, do negro, dos indígenas etc.
Vários são os desafios enfrentados pelo movimento de juventude. O grande barato é que dá para perceber neste movimento que há uma predisposição para se juntar e tentar superar estes desafios. E como espelho da sociedade, se a juventude conseguir avançar nestes desafios, conseqüentemente a sociedade estará avançando, e mudanças estarão acontecendo.
Desafios do movimento de juventude:
- Desafio de saber conviver com as diferenças:
O movimento juvenil não é único, não é um só, mas deve ser unido. Unido não no sentido da coesão e da unidade por um objetivo comum, mas no sentido da concórdia e da harmonia entre diferentes. Isso gera o desafio do constante aprendizado e da abertura ao diálogo e a negociação frente às diferenças e a inovação, a contradição e a complexidade da juventude e conseqüentemente da própria sociedade. A grande potencialidade de pacificar a sociedade está na possibilidade de diálogo entre as mais diversas juventudes. - Desafio da cidadania plena:
O fato da maioria dos jovens serem impedidos de ser cidadãos plenos é algo que atrapalha muito o movimento de juventude. Direitos Humanos comumente desrespeitados são:- Direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal;
- Direito à propriedade, só ou em sociedade com outros;
- Direito de acesso ao serviço público do seu país;
- Direito à segurança social e à realização econômica, social e cultural;
- Direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego;
- Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social;
- Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle;
- Toda pessoa tem direito a repouso e lazer;
- Toda pessoa tem direito à instrução.
- O desafio do associativismo:
Organização de indivíduos/sujeitos em grupos. Esta é a célula-mãe desse movimento de juventude. Não se trata de um movimento apenas de indivíduos. Jovem em grupos, que surgem espontâneos, que nascem a partir de inquietações, são mais fortes para lutar por transformações nos mais variados setores da sociedade. O desafio de reunir condições mínimas necessárias para que os grupos juvenis possam ter um caráter organizativo mais forte é um desafio, que passa por conhecimentos de gestão, formação de equipe, financiamento e parceria. As organizações juvenis, que surgem de grupos juvenis prévios às próprias organizações, surgem com relações diferentes das organizações já consolidadas na sociedade, sendo as juvenis mais horizontais e mais humanas. Se essas organizações se fortalecem, crescerão e serão as organizações do amanhã. Porém poucas instituições trabalham para fortalecer e apoiar o associativismo juvenil espontâneo.
- O desafio da estigmatização e do reconhecimento:
Os jovens são muitas vezes rotulados pela sociedade em geral como rótulos negativos, associados à irresponsabilidade, a violência, ao despreparo, a falta de experiência, a ingenuidade etc. E assim são muito pouco reconhecidos como atores reais, com opiniões próprias e com propostas para transformar a sociedade. O pior é que muitos jovens acabam acreditando nestes rótulos negativos e acabam sem querer reforçando essa imagem. A juventude deve ser reconhecida como ator importante para mudanças. - O desafio da relação intergeracional:
Muito atrelado aos tópicos anteriores do desafio de saber conviver com as diferenças e do desafio da estigmatização e do reconhecimento, existem várias formas que esta relação intergeracional é percebida. O mundo adulto tende a perceber o jovem como eterno aprendiz, como eterno ser em formação. Os jovens buscam uma relação igualitária, de igual para igual, com o mundo adulto, para que possam expressar suas opiniões e implementar suas proposições. Várias músicas brasileiras mostram um pouco desta relação, veja alguns exemplos:- “É preciso acreditar num novo dia, na nossa grande geração perdida, nos meninos e meninas”.Legião Urbana.
- “Depois de vinte anos na escola não é difícil aprender, todas as manhas do jogo sujo, não é assim que tem que ser? Vamos fazer nosso dever de casa, e aí então, vocês vão ver. Suas crianças derrubando reis, fazer comédia no cinema com as suas leis”. Legião Urbana.
- “Ninguém tá escutando o que eu quero dizer, ninguém tá me dizendo o que eu quero escutar, ninguém tá me explicando o que eu quero entender, ninguém tá entendendo o que eu quero explicar”.Gabriel O Pensador.
- O desafio da participação:
Vivemos num mundo e num país que vem tentando superar vários desafios relativos à falta de democracia. Sem dúvida temos muitos avanços. Mas o modelo que hoje prevalece ainda é o modelo da democracia representativa. Na observação do movimento juvenil, é possível perceber que se torna cada vez mais complicado alguém se dizer representante da juventude. Até se fala em juventudes, no plural. A mesma reflexão volta para a própria sociedade, já que a juventude é apenas um espelho dela. Existe um só padrão de sociedade? A crise da representatividade está tanto na juventude como na sociedade como um todo. O principal desafio é a migração de uma cultura de democracia representativa para uma cultura de democracia participativa. Na democracia participativa o movimento se faz fazendo, no dia a dia, na base, pelos seus diversos atores. Se a juventude conseguir avançar internamente no campo da democracia participativa, isso será também um belo indicador de mudanças para o futuro da sociedade como um todo.
A superação destes, e outros, desafios pode apontar bastante esperança para a sociedade. O reconhecimento do movimento juvenil, na sua singularidade e complexidade é muito importante para isso. Mas não apenas o reconhecimento. De que adiantaria o reconhecimento sem o apoio para este movimento se movimentar e se manifestar?
Apoiar o movimento juvenil é ao mesmo tempo apoiar possibilidades de mudanças da sociedade. Neste sentido temos que também reconhecer a singularidade de execução de políticas públicas de apoio e fortalecimento deste movimento. As instancias governamentais responsáveis pelo planejamento, implementação e avaliação das políticas públicas de juventude devem ser encaradas não apenas pelo seu caráter articulador com outras instâncias públicas (de saúde, de educação, de trabalho etc.), mas também devem ter seu caráter executivo, em áreas como articulação de base dos movimentos de juventude, financiamento a grupos juvenis, estímulo à democracia participativa e assim por diante.
Precisamos de uma maior clareza e entendimento quanto à noção e ao conceito de jovem e de juventude, entendendo juventude como o coletivo dos jovens. Aqui temos que ter avanços na percepção de que a juventude por natureza tem característica associativista.
O jovem não pode apenas ser visto como um sujeito a ser desenvolvido, ser transformado e ser inserido no sistema. O jovem pode ser visto assim sim, mas também, quando organizado, é ou pode vir a ser um ator-coletivo chave em processos de transformação e desenvolvimento da sociedade e seus sistemas. Precisamos acumular e avançar na discussão e na compreensão de que tanto a sociedade pode transformar a jventude como, além disso, e principalmente, a juventude também pode transformar a sociedade. Este é o sentido do movimento juvenil!
[1]Touraine, Alain. Democracia y Juventud en Chile. Revista Iberoamericana de Juventud.Nº.1. Madrid, 1996.
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