Haia/Holanda, 09/Nov/2005
por Rui Mesquita Cordeiro |rui@cidadania.org.br
Traduzido em 12/Nov/2005
por Ana Angélica Rocha |angelica@cidadania.org.br
Texto completo para download (versão PDF em inglês, 160 KB):
http://www.unoy.org/downloads/RC_060531/pb_theory/2005_Mesquita.pdf
Trinta e sete anos após os motins estudantis em Paris (maio de 1968), novos motins ocorrem na França.
Maio de 1968 representa um grande momento histórico para os movimentos sociais na Europa e no mundo inteiro. A juventude, com os estudantes, começou uma insurreição na França que rapidamente ganhou força e por pouco não tomou proporções revolucionárias. Isso começou com o protesto pela “fechamento e a ameaça de expulsão de diversos estudantes”[1]da Universidade de Paris em Nanterre. Isso gerou greves estudantis através de universidades e escolas e logo se transformou também em greves de trabalhadores, por toda a França, parando entre a metade e dois terços da força de trabalho do país naquele tempo.
Eles estavam chamando atenção para algo de errado que estava acontecendo no mundo: frustração pessoal, guerras, desemprego, pobreza, desigualdades e outros (veja o que era mostrado nos slogans e grafittis da época no final deste documento).
Greves pacíficas de estudantes e trabalhadores logo se tornaram violentas, após a intervenção do estado (através da polícia) em ocupações de universidades e locais de trabalho, sob as ordens de Gaulle. Mas ao invés de controlar os motins, a intervenção do estado ajudou a sensibilizar outros se unirem aos protestos e às greves.
A arte teve um papel muito importante nos motins de 1968. Ela era uma maneira jovem de protestar contra o que estava errado. Muitos cartazes, como os usados neste artigo, representam o movimento juvenil pacífico e com arte.
O movimento deu espaço para a discussão sobre desenvolvimento e liberdade. No mesmo momento histórico, outros novos movimentos estavam surgindo também. John Friedman[2](1992: 1) fala sobre “os novos movimentos sociais de ecologia, paz e de mulheres” e a “insurreição estudantil em Paris de maio de 1968” como parte das origens do pensamento do Desenvolvimento Alternativo.
A história parece ser irônica. Ou assim são os seres humanos!
Após 37 anos, o mesmo problema ainda ocorre: frustração pessoal, guerras, desemprego, pobreza e desigualdade. Não apenas na França, mas em todo o mundo. Após dois jovens franceses morrerem em 27 de outubro de 2005, novos motins juvenis começaram em toda Paris e França. As mortes aconteceram depois de uma perseguição policial ou de um “trágico engano”[3], de acordo com as autoridades francesas.
Os dois jovens eram cidadãos franceses, mas filhos de imigrantes. Eles costumam viver nos subúrbios de Paris, e como muitos imigrantes e descendentes, excluídos da vida social que é comum para os cidadãos franceses “puros”.
Isso foi o suficiente para revelar novamente a voz juvenil que estava escondida atrás das cortinas da estrutura social mundial. E novos motins juvenis começaram novamente, por dias e semanas na França!
E como em 1968, isso ele foi apenas iniciado pela juventude. Não é apenas a juventude dos subúrbios que está sofrendo essa exclusão, mas também as suas famílias e seus vizinhos adultos. Rapidamente isso está se tornando um motim em que a juventude e outros excluídos se tornam parceiros, basicamente muçulmanos e imigrantes.
De Villepin, primeiro ministro francês, tem copiado de Gaulle em 1968, e pedido intervenção policial, o que novamente apenas estimula mais protestos. Me questiono se as autoridades francesas relembram ou não a sua própria história. Como resultado direto da intervenção policial, protestos juvenis estão rapidamente se espalhando por toda Paris e por muitas outras cidades na França, onde a população de imigrantes sofre de problemas similares. Até outros países ricos da Europa ocidental começam a temer que motins juvenis similares ocorram, devido a problemas sociais semelhantes.
No mundo inteiro, problemas sociais e econômicos similares geram inquietação e ação juvenil. Mas é apenas em momentos de crise, quando a juventude tenta usar o seu hard power ao invés do seu habitual soft power, que a mídia e os governantes prestem atenção nas suas ações, manifestações e iniciativas. O pior é que sempre rotulando a juventude como pessoas más, improdutivas, vagabundos e anarquistas (com o significado errado desta palavra).
Existem muitas organizações juvenis, em todo o mundo, chamando atenção e trabalhando com muitos diferentes temas da sociedade. Elas geralmente utilizam o seu soft power todo o tempo para combater a desigualdade. E como em 1968, muitas usam a arte para enviar sua mensagem. Você já prestou atenção do verdadeiro Hip-Hop?
Quando é que o mundo adulto vai parar para realmente ouvir a juventude? Existe um conflito intergeracional instalado há muito tempo. E nós simplesmente fechamos nossos olhos para isso!
A juventude pode trazer respostas muito boas. Realmente ela traz respostas! Visite os websites abaixo e se surpreenda com a quantidade e a qualidade de trabalhos em de base que a juventude está liderando no mundo inteiro. Alguns desses websites têm a mesma intenção dos cartazes de 1968. Esteja consciente de que a maioria das organizações juvenis não matêm websites na internet. Essa é apenas uma pequena e simples amostra do todo maior.
América Latina:
http://www.movimentojuvenil.org.br/
http://www.iica.org.uy/redlat/
http://www.joveneslac.org/
América do Norte:
http://www.youthmovements.org/
http://www.takingitglobal.org/
http://www.youthradio.org/
Europa:
http://www.ojala.nl/
http://www.unoy.org/
http://www.cje.org/oje/
Africa:
http://www.azapo.org.za/
http://www.mysakenya.org/
http://www.youthmedia.org.zm/
Ásia:
http://www.game4change.org/
www.takingitglobal.org/resources/orgs/view.html?OrgID=4896
www.takingitglobal.org/resources/orgs/view.html?OrgID=7537
A juventude não está se calando! Está se pronunciando! E isso está trazendo formas alternativas de desenvolvimento e esperança para a sociedade. Mas parece que o mundo adulto não está interessado e conseqüentemente não está em parceria com a juventude para (re)construir o presente.
Uma tensão está instalada, e de tempos em tempos ela simplesmente explode. É isto o que está acontecendo de novo na França, uma explosiva mistura de injustiça social e tensão intergeracional.
Ambos motins não aconteceram porque a juventude é violenta, mas porque o mundo é injusto. Muito mais injusto foram/são os politicos e sua ganância . Eles criaram guerras e a atual estrututa social desigal que nós temos.
E sobre o futuro? Quantos motins como esses nós ainda precisaremos esperar no futuro? A turbulência na França irá passar, mas e as injustiças? Passarão também?
As insurreições juvenis de 1968 mudaram a França e as sociedades ocidentais de muitas maneiras: culturalmente, sexualmente, intelectualmente e até mesmo politicamente.
Essa nova insurreição juvenil de 2005 mudará a sociedade mais uma vez de que maneira? Nós perceberemos que o maior desafio e o maior problema que nós temos hoje em nosso planeta é a desigualdade? Isso é o que a juventude está clamando agora! Nós iremos escuta-la?
Eu acredito que nós (enquanto sociedade) temos dois caminhos a seguir: escutar a juventude através do seu soft power ou através do seu hard power. O que quer que nós escolhermos, teremos conseqüências muito distintas.
Slogans e grafites que podiam ser vistos nos muros e nas ruas da França em maio de 1968[4]:
Boredom is counterrevolutionary.
Pas de replâtrage, la structure est pourrie.
No replastering, the structure is rotten.
Nous ne voulons pas d’un monde où la certitude de ne pas mourir de faim s’échange contre le risque de mourir d’ennui.
We want nothing of a world in which the certainty of not dying from hunger comes in exchange for the risk of dying from boredom.
Ceux qui font les révolutions à moitié ne font que se creuser un tombeau.
Those who make revolutions by halves do but dig themselves a grave.
On ne revendiquera rien, on ne demandera rien. On prendra, on occupera.
We will claim nothing, we will ask for nothing. We will take, we will occupy.
Plebiscite : qu’on dise oui qu’on dise non il fait de nous des cons.
Plebiscite: Whether we say yes or no, it makes chumps of us.
Depuis 1936 j’ai lutté pour les augmentations de salaire. Mon père avant moi a lutté pour les augmentations de salaire. Maintenant j’ai une télé, un frigo, une VW. Et cependant j’ai vécu toujours la vie d’un con.Ne négociez pas avec les patrons. Abolissez-les.
Since 1936 I have fought for wage increases. My father before me fought for wage increases. Now I have a TV, a fridge, a Volkswagen. Yet my whole life I’ve been a chump. Don’t negotiate with the bosses. Abolish them.
Le patron a besoin de toi, tu n’as pas besoin de lui.
The boss needs you, you don’t need him.
Travailleur: Tu as 25 ans mais ton syndicat est de l’autre siècle.
Worker: You are 25, but your union is from the last century.
Veuillez laisser le Parti communiste aussi net en en sortant que vous voudriez le trouver en y entrant.
Please leave the Communist Party as clean on leaving as you would like to find it on entering.
Je suis marxiste tendance Groucho.
I am a Marxist of the Groucho tendency.
Soyez réalistes, demandez l’impossible.
Be realistic, ask for the impossible.
On achète ton bonheur. Vole-le.
Your happiness is being bought. Steal it.
Sous les pavés, la plage !
Beneath the cobblestones, the beach!
Ni Dieu ni maître !
Neither God nor master!
Godard : le plus con des suisses pro-chinois !
Godard: the biggest of all the pro-Chinese Swiss assholes!
Soyons cruels !
Let us be cruel!
Comment penser librement à l’ombre d’une chapelle ?
How can one think freely in the shadow of a chapel?
À bas la charogne stalinienne ! À bas les groupuscules récupérateurs !
Down with the Stalinist carcass! Down with the recuperator cells!
Vivre sans temps mort – jouir sans entraves
Live without dead time [ie. work-time] – enjoy without chains.
Il est interdit d’interdire.
It is forbidden to forbid.
Dans une société qui a aboli toute aventure, la seule aventure qui reste est celle d‘abolir la société.
In a society that has abolished all adventures, the only adventure left is to abolish society.
Et cependant tout le monde veut respirer et personne ne peut respirer et beaucoup disent ” nous respirerons plus tard. ” Et la plupart ne meurent pas car ils sont déjà morts.
Meanwhile everyone wants to breathe and nobody can breathe and many say, “We will breathe later.” And most of them don’t die because they are already dead.
L‘émancipation de l‘homme sera totale ou ne sera pas.
The liberation of humanity will be total or it will not be.
La révolution est incroyable parce que vraie.
The revolution is incredible because it‘s real.
Je suis venu. J‘ai vu.J‘ai cru.
I came. I saw. I believed.
Cours, camarade, le vieux monde est derrière toi !
Run, comrade, the old world is behind you!
Il est douloureux de subir les chefs, il est encore plus bête de les choisir.
It‘s painful to submit to our bosses; it‘s even stupider to pick them.
Un seul week-end non révolutionnaire est infiniment plus sanglant qu‘un mois de révolution permanente.
A single nonrevolutionary weekend is infinitely more bloody than a month of permanent revolution.
Le bonheur est une idée neuve.
Happiness is a new idea.
La culture est l‘inversion de la vie.
Culture is the inversion of life.
La poésie est dans la rue.
Poetry is in the street.
L‘art est mort, ne consommez pas son cadavre.
Art is dead, don‘t consume its corpse.
L‘alcool tue. Prenez du L.S.D.
Alcohol kills. Take LSD.
Debout les damnés de l‘Université.
Arise, wretched of the University.
Même si Dieu existait il faudrait le supprimer.
Even if God existed he would have to be suppressed.
SEXE : C‘est bien, a dit Mao, mais pas trop souvent.
SEX: It‘s okay, says Mao, but not too often.
Je t‘aime! Oh! dites-le avec des pavés!
I love you! Oh, say it with cobblestones!
Camarades, l‘amour se fait aussi en Sc. Po, pas seulement aux champs.
Comrades, people are making love in the classrooms, not just in the fields.
Mort aux vaches!
Death to the cows (police)!
Nota: Todas as imagens deste texto foram retiradas do website “Art for a Change”, de Mark Vallen:
http://www.art-for-a-change.com/Paris/paris.html
[3]BBC News. The deaths that set Clichy ablaze.http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/4399070.stm| 06 de novembro 2005
[4]Wikipedia, the free encyclopedia. Slogans and graffiti from May 1968.http://en.wikipedia.org/wiki/1968_student_riots#Slogans_and_graffiti| 09 de novembro 2005
Texto completo para download (versão PDF em inglês, 160 KB):
http://www.unoy.org/downloads/RC_060531/pb_theory/2005_Mesquita.pdf
Arquivado em: Ação Política Juvenil / Acción Política Juvenil / Youth Politics, | Português