Haia, Holanda, 16/Jan/2006 | Por Rui Mesquita | rui@cidadania.org.br
Traduzido em 25/Jan/2006 por Ana Angélica Rocha | angelica@cidadania.org.br
IntroduçãoEntendendo Desenvolvimento AlternativoPós-desenvolvimentoDesenvolvimento Centrado em PessoasModernidades AlternativasContrastando Desenvolvimento Convencional e Alternativo[1]e morrem.
Desenvolvimento, como um campo de estudo e como uma prática planejada, tem estado em destaque desde o final da Segunda Guerra Mundial e da criação das Nações Unidas, na década de 1940. Era inaceitável que após duas guerras de proporções mundiais em meio século a paz não prevalecesse. A esperança estava em todo lugar, e com ela, idéias e ideais de desenvolvimento nasceram direcionadas a um planeta empobrecido e desacreditado.
Logo após esse período, ainda durante a reconstrução dos países europeus e asiáticos, o mundo se viu dividido em dois caminhos rumo ao desenvolvimento, dois ideais e duas maneiras de fazer política. Capitalismo e Socialismo estavam começando uma outra disputa, uma disputa ideológica. De repente, o mundo estava na iminência de uma nova guerra, uma Guerra Fria.
As idéias (e os ideais) de desenvolvimento também se dividiram em dois. No final, os que acreditaram que o caminho para o desenvolvimento baseado no livre-mercado e nas idéias liberais venceram aquela fria batalha contra os que acreditavam em um caminho baseado no controle estatal dos meios de produção. Essa “vitória” aconteceu no início da década de 1990, com o colapso da União Soviética.
Daqui por diante, eu estarei focado no que aconteceu entre as extremidades desta guerra fria, com os corações e mentes de algumas pessoas que começaram a acreditar em alternativas fora desses dois caminhos principais. Além disso, eu também focarei no atual debate sobre desenvolvimento alternativo e em uma comparação entre ele e o atual enfoque de desenvolvimento convencional, um descendente direto da parte vitoriosa da guerra fria.
Historicamente, eu identifico três fatos principais relacionados com o surgimento de um pensamento e de uma prática de desenvolvimento alternativo: (a) o movimento dos países não alinhados; (b) o surgimento dos novos movimentos sociais; e (c) uma produção acadêmica apontando para alternativas.
O movimento dos países não alinhados foi um movimento político de governantes de todo o mundo declarando que não estavam alinhados com os blocos socialista ou capitalista. Mais de 100 países formaram esse movimento cuja origem “pode ser rastreada a partir de uma conferência realizada na cidade de Bandung, na Indonésia, em 1955. As nações do mundo não-alinhadas declararam o seu desejo de não se envolver no confronto ideológico oriente-ocidente da Guerra Fria” (Wikipedia, 2005). Isso era um sinal político da insatisfação com a forma como a política e o desenvolvimento estavam sendo direcionados em meados do século XX.
Outro fato era o surgimento dos chamados novos movimentos sociais, durante os anos 1960. Friedman diz que muitas pessoas “conhecem os anos 1960 como a década de uma ‘política de movimentos’ que mexeu com o mundo de Pequim até Paris” (1992:1). Ele fala sobre os novos movimentos sociais de ecologia, mulheres, a Revolução Cultural Chinesa, o movimento norte-americano dos Black Power e as insurreições estudantis de maio de 1968 em Paris. Além disso, ainda enfatizo que havia muitos outros movimentos juvenis como, por exemplo, o movimento reclaiming the streets (recuperando as ruas), em Londres (Weinstein, 2004:181), e os motins juvenis em Zurique, os movimentos de squatter (invasão) em Berlim e Amsterdam e os conflitos da auto-estrada oeste ( runway-west) em Frankfurt (Eckert and Willwms, 1986); assim como na América Latina, todos os movimentos sociais pela redemocratização, ao longo dos anos 1970 e 1980. Antes desses movimentos surgirem, havia apenas o movimento operário (chamado como “velho movimento”) na arena dos movimentos sociais, e ele estavam muito alinhados com o bloco socialista. A partir daí, a sociedade civil ganhou força e começou a alcançar a sua emancipação para fazer política. Diferentemente dos sindicatos, os novos movimentos sociais estão fazendo política por fora das estruturas institucionalizadas dos partidos políticos. Em suas agendas, eles estão reivindicando direitos ao estado e à sociedade, e também eles estão provocando novas e alternativas políticas.
Influenciado pelos dois fatos anteriores, entre outros, uma nova produção intelectual acadêmica emergiu a partir dos anos 1970 em diante, procurando por alternativas para o nosso mundo dividido. Intelectuais como Andre Gunder Frank (Teoria da Dependência), Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido), Jürgen Habermas (Pós-modernidade), Ivan Illich (Desenvolvimento como probreza planejada), Majid Rahnema (Pós-desenvolvimento), John Friedman and David C. Korten (Desenvolvimento Centrado em Pessoas), Dilip P. Gaonkar (Modernidades Alternativas), e muitos outros, conduziram para um novo cenário na literatura sobre desenvolvimento. Para uma compreensão mais profunda da estrutura de pensamento do Desenvolvimento Alternativo, vamos nos focar em três dessas contribuições: Pós-desenvolvimento, Desenvolvimento Centrado em Pessoas e Modernidades Alternativas.
O desenvolvimento chegou ao seu fim! Essa é a principal afirmação de Rahnema (2001:378) sobre a falha das estratégias de desenvolvimento utilizadas para se alcançar o desenvolvimento. Rahnema se refere ao desenvolvimento da maneira como ele foi proposto no início, nas décadas de 1940 e 1950. Ele argumenta que o desenvolvimento “era uma ideologia que nasceu e foi refinada no Norte, principalmente para ir ao encontro das necessidades dos poderes dominantes”; “ele foi imposto para as suas comunidades alvo”, sendo “a resposta errada para as suas verdadeiras necessidades e aspirações” (ibid.:379). Uma vez que o desenvolvimento fracassou, agora nós vivemos em uma era de pós-desenvolvimento. Korten (1992:54) diz que 650 milhões de pessoas viviam em absoluta pobreza em 1970, e vinte anos após essa afirmação, esse número quase dobrou para algo em torno de 1,2 bilhões de pessoas. Conseqüentemente, como nós podemos atribuir algum sucesso para o desenvolvimento durante toda a metade do século XX?
A era do pós-desenvolvimento não implica no fim da busca por novas possibilidades de mudança. De outra maneira, é um tempo para mudar o foco do desenvolvimento, “dando a luz a novas formas de solidariedade e amizade”. Além disso, essa mudança “deveria incitar a todos para começar um genuíno trabalho de autoconhecimento e de auto-aperfeiçoamento” (Rahnema, 2001:391). Rahnema argumenta que se nós queremos mudar o mundo, nós devemos começar mudando nós mesmos, superando nossos medos do desconhecido e olhando para as coisas como elas são, e não como nós queríamos que elas fossem (ibid.:392). O ponto central no pós-desenvolvimento é a possibilidade de desfazer o desenvolvimento, como ele foi planejado inicialmente, e dar a ele muitas faces novas, onde todos podem ser exemplo para um processo coletivo de mudança positiva, onde as pessoas estejam no centro da ação.
A abordagem do desenvolvimento centrado em pessoas é a base de pensamento do desenvolvimento alternativo, e ela foi impulsionada por militantes (novos movimentos socais) e por acadêmicos de esquerda. Todos eles se opunham a maneira como o desenvolvimento estava sendo realizado. Logo, em fins da década de 1960 e início da década de 1970, eles descobriram algumas coisas óbvias. A primeira delas é que a pobreza e a fome estavam em níveis mais elevados do que no tempo em que as Nações Unidas foi criada, mesmo com o nível de produção mais alto em ambos os sistemas dominantes, capitalismo e socialismo. O primeiro centrado nas forças de mercado e o segundo centrado no poder do estado. Portanto, uma segunda e óbvia questão foi logo observada: onde estavam as pessoas? A agenda de desenvolvimento deve ser centrada no mercado, no estado, ou alternativamente, nas pessoas? E isso não era tudo: capitalismo e comunismo são ambos sistemas produtivos. Crescimento econômico e suas implicações sociais eram uma importante preocupação para os dois sistemas. Era natural, devido ao aumento dos níveis de produção nesses sistemas, perceber uma terceira coisa óbvia: o mundo é finito e o meio ambiente deve ser observado e respeitado, e esse não era o caso. Após o colapso da doutrina socialista, as forças de mercado se encontraram livres para explorar e tirar proveito dos recursos naturais do planeta a fim de gerar crescimento econômico. Por quanto tempo o nosso planeta suportará esse desenvolvimento insustentável centrado em crescimento?
John Friedman (1992) descreve uma justificação moral para o desenvolvimento centrado em pessoas, em harmonia com o meio ambiente. Ele sustenta sua argumentação afirmando que estar centrado em pessoas é estar focado nas necessidades básicas dessas pessoas, basicamente comida, água e moradia. E para estar em harmonia com o meio ambiente, a sustentabilidade planetária deve ser respeitada e, portanto, o crescimento deve ser limitado. Essa visão está em oposição direta à agenda do desenvolvimento convencional, baseada na maximização do crescimento. Friedman também declara que defender essa abordagem de desenvolvimento alternativo “tem mais haver com moralidade do que com fatos” (ibid.:10). Ele nos mostra três fundamentos para justificar moralmente uma alternativa de desenvolvimento centrado em pessoas: “direitos humanos, cidadania e ‘florescimento humano’” (ibid.). Primeiramente, nos direitos humanos, ele defende a Declaração Universal dos Direitos Humanos, enfatizando seus direitos civis, políticos, econômicos e sociais, incluindo liberdade e necessidades básicas. Ele diz que uma exclusão intencional desses direitos é um tipo de violência contra a pessoa excluída” (ibid.). Segundo, em cidadania, ele provoca sobre a “relativa autonomia dos cidadãos vis-à-vis ao estado”, presumindo, portanto, um moderno e democrático estado onde detentores da autoridade sejam fundamentalmente prestadores de contas às pessoas organizadas como uma comunidade política” (ibid.:11). Por ultimo, seu terceiro fundamento moral é sobre “florescimento humano”, um termo “evocativo e aberto a interpretações” (ibid.) que tem haver com a possibilidade de cada ser humano viver até o máximo da sua capacidade.
David Korten (1984, 1992) também defende a abordagem centrada em pessoas para o desenvolvimento e descreve os principais princípios para uma agenda de desenvolvimento alternativo. Para ele, pobreza, degradação do meio ambiente e violência communal são os três principais elementos de uma crise global (1992:54). Começando com a pobreza, ele enfatiza o número crescente de pessoas vivendo em absoluta pobreza entre 1970 e 1990, assim como o problema da desigualdade: “a tendência para o aumento da pobreza foi acelerado na década de 1980, bem como a distância entre ricos e pobres cresceu em um ritmo alarmante” (ibid.). Além disso, ele chama a atenção para o pensamento dominante em relação ao meio ambiente e os altos níveis de poluição, principalmente causados pela lógica produtiva: “a lógica dominante da era industrial foi uma lógica produtiva e os seus objetivos prioritários estavam centrados na produção” (1984:299). Logo ele diz que a violência communal “é uma manifestação da crescente desintegração de nosso tecido social” (1992:55). Em outras palavras, a violência está se tornando comum, está se tornando parte do nosso dia-a-dia, especialmente nos países do sul. Para ele, esse problema também está relacionado com a divisão de classes que temos hoje. Ele divide a sociedade em três classes: super consumidores (20% da população mundial), sustentáveis (60%) e marginais (20%) (1992:59). Estarão, os super consumidores, prontos para reduzir o seu padrão de vida em favor daqueles marginais? Para resumir, ele diz que “a sobrevivência da nossa civilização depende do nosso comprometimento para uma prática de desenvolvimento alternativo guiada por três princípios básicos do autêntico desenvolvimento: justiça (a prioridade deve ser dada para a segurança e uma condição humana decente para todas as pessoas), sustentabilidade (os recursos do planeta devem ser usados de uma maneira que assegure o bem-estar das futuras gerações) e inclusão (todas as pessoas devem ter a oportunidade de ser reconhecidas e respeitadas para contribuírem com a família, a comunidade e a sociedade)” (1992:60-61). Esses três princípios são chaves para se entender e definir o que é desenvolvimento alternativo.
Desenvolvimento alternativo tem como foco as pessoas, e pessoas vivem no nível local: em nossas cidades, comunidades, vizinhanças e famílias. Cada espaço local desenvolve sua própria cultura que interage com uma crescente cultura global. Essa interação provoca mudanças e um constante deslocamento de escala: local-global e global-local. Minha percepção me diz que a tendência predominante observada hoje é o fluxo global-local. Portanto, o local está sendo muito mais influenciado pelo global do que o contrário. Para a abordagem do desenvolvimento alternativo, é necessário um maior equilíbrio nesta equação.
Para entender melhor essa cultura global, nós precisamos entender modernidade. Modernidade é um termo usado para descrever a condição de ser ‘moderno’. Visto que o termo ‘moderno’ é usado para descrever uma ampla gama de períodos, modernidade deve ser tomada em contexto (Wikipedia, 2006a). Para o nosso recente contexto mundial, modernidade tem haver com determinadas transformações culturais e sociais que têm ocorrido principalmente, mas não exclusivamente, no mundo ocidental. Importantes eventos no desenvolvimento da Modernidade nesse contexto incluem a chegada da imprensa escrita, a Guerra Civil Inglesa, a Revolução Americana, a Revolução Francesa, as revoluções de 1848, a Revolução Russa, e a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais (ibid.). Para Gaonkar, a modernidade não tem chegado de repente, mas lentamente, pouco a pouco, ao longo do longo período de despertar da civilização, transportada através do comércio, administrada por impérios, carregado de receitas coloniais; impulsionada pelo nacionalismo; e agora cada vez mais guiada pela mídia global, fluxos de migração e pelo capital (2001:1). A Modernização é composta por dois pilares: modernismo social e cultural. Por um lado, ele descreve o modernismo social como aquelas transformações cognitivas que implicam em uma conscientização científica, com um ponto de vista secular e uma estrutura administrativa burocrática que busca por eficiência, entre outras, sendo uma fonte de pensamento convergente. Por outro lado, ele define modernismo cultural como uma fonte de divergência que apontava para a quebra de tradições e que foi “repelido pela ética da classe media” (ibid.:2). Não havia normas de expressão; todos os tipos de expressão eram válidos. Olhando isso de uma outra maneira, de um lado o modernismo social provoca sobre as idéias de progresso e eficiência; e por outro lado, o modernismo cultural provoca sobre as idéias de liberdade. Logo, podemos ver que estamos falando sobre idéias liberais. Essa modernidade liberal está sendo difundida ao redor do mundo inteiro e passo a passo está se transformando em uma cultura global única que exerce alguma influência em nossos contextos locais.
Uma vez que isso é modernidade, onde nós encontramos modernidades alternativas? A conclusão de Gaonkar é que a modernidade por si só não é única, mas muitas; e que não é nova, mas sim velha e familiar; e ela é incompleta e necessária. Dependendo da maneira como o mundo é interpretado, diferentes e alternativas modernidades podem emergir.
No campo das modernidades alternativas, o local deve exercer alguma influência no global. Vandana Shiva nos dá exemplos de como a ciência ocidental está destruindo o conhecimento local. Ela diz que a “ciência moderna está projetada como um sistema de conhecimento universal e livre de valores que tem substituído todas as outras crenças e conhecimentos por sua universalidade e neutralidade” (Shiva, 1989:162). Além disso, enquanto citando Keller e Harding, ela acrescenta uma importante crítica feminista a isso afirmando que os fundadores da ciência moderna são quase todos homens brancos, burgueses e de classe média (ibid.).
No geral, a possibilidade de se pensar em modernidades alternativas significa que nem tudo é sobre mudança. Algumas coisas, como culturas locais, devem permanecer, se esse é o desejo de seus proprietários. Modernidades alternativas abre espaço para equilibrar a equação inicial sobre a escala de influência, fazendo o fluxo local-global ter o mesmo nível de influência do fluxo global-local. É verdade que o local está se tornando global, mas equilibrando essa equação, o global também pode se tornar local.
Como previamente dito, a abordagem corrente sobre desenvolvimento convencional é um descendente direto do lado vitorioso da Guerra Fria. Ela se relaciona diretamente com a tendência dominante de modernidade (social e cultural), bem como ela está muito comprometida com a promoção de crescimento econômico (centrado na produção). A combinação dessas duas características forma o então chamado neoliberalismo, porque juntos eles misturam políticas liberais e economia orientada pelo mercado.
De acordo com Michael Peters (1999), Friedrich von Hayek é um dos pais do neoliberalismo. Ele diz que Hayek defende a idéia do Mercado como uma produção espontânea da ação humana, não intencionado por um projeto humano inteligente. Além disso, ele diz que “o liberalismo de Hayek enfatizava: metodologia individualista, homo economicus, baseado nas suposições da individualidade, racionalidade, interesse pessoal, e a doutrina da ordem espontânea” (ibid.).
No neoliberalismo, os indivíduos são livres para acumular tanta riqueza quanto possam. Sua justificativa ética assenta-se no fato de que a equidade está baseada em oportunidades iguais (não em acesso igual aos recursos). Teoricamente, se todos têm a mesma oportunidade para acumular riqueza, e alguém não é bem sucedido, isto é uma falha apenas do indivíduo fracassado. Para aqueles que historicamente não poderiam acumular riqueza, qualquer que seja a razão, a resposta é não dividir a riqueza existente, mas sim fazer o crescimento econômico acontecer novamente, para que aqueles que não são suficientemente ricos possam tentar mais uma vez, usando a sua força de trabalho no mar de oportunidade da nova mais valia criada. Isso se torna mais claro quando olhamos para o conceito do homos economicus: “homos economicus é um termo usado a partir de uma aproximação com o homo sapiens que atua para obter o máximo possível de bem-estar para si mesmo dada as informações disponíveis sobre as oportunidades e outras restrições, natural e institucional, na sua habilidade para alcançar seus objetivos predeterminados” (Wikipedia, 2006b).
A globalização tem um importante papel na agenda de desenvolvimento neoliberal. Através dela, o neoliberalismo está alcançando maior influência e poder global, em nosso anárquico sistema político internacional. Para Thirlwall, trata-se uma questão de interdependência: “o termo globalização se refere a todas as forças operantes em uma economia mundial que aumenta a interdependência e ao mesmo tempo torna os países mais e mais dependentes de forças fora do seu controle” (2003:13). De acordo com ele, entre essas forças estão: a ampliação e a liberação do comércio; o crescimento dos mercados de capitais globais; um grande movimento de pessoas pondo a baixo barreias culturais; a difusão das tecnológicas da informação; e novas instituições internacionais como a Organização Mundial do Comércio, reduzindo a autonomia nacional (ibid.:13-15).
O desenvolvimento neoliberal convencional é um sistema no qual mulheres e homens servem à economia. Nele pessoas se tornam mercadorias econômicas na espontaneidade do mercado, o que apenas ajuda a aumentar a desigualdade mundial. Isso está em oposição direta à abordagem do desenvolvimento alternativo, uma vez que ele é centrado em pessoas, e conduz para uma justiça social, um futuro sustentável, e uma sociedade política e economicamente inclusiva. Na abordagem do desenvolvimento alternativo, a economia serve às pessoas, e a realidade e o poder no nível local são muito mais importantes uma vez que é nele que as pessoas nascem, vivem
Comparando DesenvolvimentosRede de Resistência Solidária, um estudo de caso[8]e indivíduos cooperantes que estão buscando uma transformação social através da lógica de um sistema de economia solidária. A Rede propõe novas relações sociais e de trabalho, mais igualdade e com mais solidariedade. Ela está focada nas comunidades dos seus membros e as iniciativas são lideradas por seus proponentes em uma íntima relação horizontal e humana.
Para estabelecer uma comparação direta entre o velho e novo desenvolvimento convencional e as perspectives de desenvolvimento alternativo, é importante definir alguns critérios. Primeiramente, por desenvolvimento convencional, focaremos no velho socialismo e no corrente neoliberalismo. Em seguida, por desenvolvimento alternativo, focaremos na abordagem centrada em pessoas e nas modernidades alternativas. Finalmente, para uma análise geral, olharemos de forma breve para a racionalidade, os objetivos, os princípios, os atores e as práticas de cada uma das abordagens.
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Critérios |
Desenvolvimento convencional | Desenvolvimento Alternativo | ||
| Velho Socialismo | Neoliberalismo | Desenvolvimento Centrado em Pessoas | Modernidades Alternativas | |
| Racionalidade | - Centrado no estado (o estado controla os meios de produção)- Poder exercido pelos proletários (sistema de partido único).- Materialismo. | - Centrado no crescimento econômico.- Individualismo (homo economicus).- Forças de Mercado livres.- Poder nos indivíduos para decidir em sistemas democráticos.- Perspectiva secular e científica. | - Centrado em pessoas.- Necessidades básicas e meio ambiente.- Empoderamento das pessoas.- Acesso ao controle dos recursos locais. | - Modernidade não é uma só, mas muitas.- Modernidade não é nova, mas velha e familiar.- Modernidade é incompleta. |
| Objetivos | - Redistribuição dos recursos. | - Geração de riqueza.- Maximização do crescimento.- Globalização. | - Justiça, sustentabilidade e inclusão.- Rede global de economias locais.- Democracias participativas. | - Muitas modernidades.- Do local para o global.- Privilegia conhecimentos culturais específicos. |
| Princípios | - Coletivismo.- Igualdade. | - Liberdade.- Democracia representativa.- Competitividade.- Propriedade privada. | - Direitos humanos, cidadania e florescimento humano.- Cooperação e auto-dependência.- Harmonia com o meio ambiente. | - Processo contínuo.- Multiculturalidade.- Solidariedade.- Respeito às culturas locais. |
| Atores | - Classes.- Partido comunista.- Estado e governo. | - Indivíduos.- Empresas (mercado).- Instituições internacionais: FMI[2], OMC[3], BM[4], entre outras. | - A comunidade.- Pessoas.- Movimentos Sociais.- ONGs[5].- Organizações de base.- Sociedade civil. | - Sociedades locais.- Pessoas. |
| Práticas | - Ditadura do “proletariado”.- Repressão armada para manter o controle. | - Maximização do lucro.- Exploração do meio ambiente.- Imperialismo.- Forças de mercado para manter o controle.- Pobreza e desigualdade. | - Empoderamento local e participação.- Economia: economia solidária, SCTL[6]e GAM[7].- Perspectiva de gênero.- Protestos de movimentos sociais.- Luta contra os opressores.- Encontros da sociedade civil global e local. | - Criatividade.- Auto-consciência.- Inclusão.- Aceitação da diversidade.- Resistência cultural. |
Esta tabela mostra as diferenças e similaridades entre as principais abordagens. A importância de se adicionar o sistema do velho socialismo nesta comparação é devido ao momento histórico no qual a abordagem do desenvolvimento alternativo foi primeiro discutida. Atualmente, indiscutivelmente, o pensamento dominante está na abordagem neoliberal. O fato do socialismo não está mais no cenário não significa que o neoliberalismo é completamente livre para fazer o jogo à sua maneira. Hoje, os principais obstáculos para o neoliberalismo, como visto na tabela, são originados pelas próprias pessoas, formando uma ampla gama de alternativas sob o guarda-chuva do desenvolvimento alternativo.
Para ilustrar essa reflexão, vamos nos focar no exemplo de uma prática de desenvolvimento alternativo, originária da cidade do Recife, no nordeste do Brasil.
De acordo com o seu projeto de constituição ( Rede de Resistência Solidária, 2005), a Rede de Resistência Solidária é um espaço afetivo e solidário de diálogo provocativo para o surgimento de novas práticas comunitárias. Ela é uma organização autônoma e informal, constituída por coletivos
A Rede é o resultado direto da aglutinação de forças entre muitas pessoas e coletivos marginalizados da periferia do Recife. Eles pretendem se fortalecer para superar a sua exclusão. Recife é uma das maiores cidades brasileiras e também uma das mais desiguais. Ela tem uma população municipal de 1,5 milhão e um total da população metropolitana de cerca de 3,6 milhões de habitantes[9]. Está localizada no nordeste do Brasil que é – de acordo com o PNUD[10]– uma das mais desiguais regiões do Brasil (PNUD, 12/12/2005). O coeficiente Gini do Recife (0,68) é o mais alto dentre todas as capitais brasileiras (ibid.). Esses dados dão algumas pistas sobre as condições sociais nas grandes cidades brasileiras. E isso não é tudo, além da desigualdade, a violência é um dos piores problemas do cotidiano do Recife.
Para explorar com mais detalhes este caso, vamos destacar alguns aspectos importantes que podem ser relacionados com a discussão deste artigo:
A racionalidade por trás da Rede de Resistência Solidária está baseada na resistência e na luta contra a desigualdade. Ela deliberadamente se opõe aos ideais neoliberais e pretende empoderar as pessoas em suas próprias comunidades. Um dos fatos mais importantes é garantir controle local dos meios de subsistência, através de redes de ajuda mútua e de economia solidária. Ela está muito próxima da racionalidade da abordagem do desenvolvimento centrado em pessoas.
Os três principais objetivos da Rede são: Rede (articulação em que todos são cooperantes independentes e solidários); Resistência (através da democratização dos seus meios de produção e difusão da informação local, cultura, educação e trabalho); e Solidariedade (dar e receber em benefício de todos) ( Rede de Resistência Solidária, 2005). Outra vez ela está relacionada com a abordagem centrada em pessoas com alguma confluência com os objetivos de modernidades alternativas.
Os princípios norteadores da Rede são: “liberdade, auto-sustentabilidade, solidariedade, ação coletiva, honestidade, igualdade, e afetividade” (ibid.). Aqui há uma mistura dos princípios dos quatro modelos analisados.
Com um ano de atividade – ela foi constituída em janeiro de 2005 – os principais atores da Rede são aproximadamente 250 indivíduos e cerca de 50 organizações de base afiliadas. Eles são todos responsáveis pela gestão da Rede. No geral, essas organizações são lideradas por jovens, informais e com fortes laços comunitários. Entre elas temos: rádios comunitárias“(Radio Viração FM)”, produtores de comunicação“( Ventilador Cultural , Revista Salve S.A., IN-Bolada Record’s, Zine De Cara com a poesia, Núcleo Gráfico Maloca de Sonhos)”,organizações juvenis“(Coletivo Êxito D’Rua, Academia de Desenvolvimento Social)”,grupos que trabalham com questões de gênero“(Rosas Urbanas, Força Mista)”,grupos culturais“(Atitude Real, Mustar rap, 4E crew, A.P.S. Crew, Movimento Hip Hop Gospel Crer, Rima vs Rua, Mangue Crew, L.E. Crew, Inquilinus, 33 Gets Crew, Irmanadas, Donas, OPG Crew)”,associações comunitárias de mais de 30 comunidades, entre outras (ibid.). No geral, eles claramente refletem os atores descritos como os da abordagem centrada em pessoas e modernidades alternativas.
Na sua prática, a Rede se reúne uma vez por semana para planejar as suas ações. Ela divide sua prática em três pilares principais: “ ação (cinco programas de rádio, um mutirão mensal de graffiti, um espaço artístico solidário, alguns fanzines, uma revista alternativa, e campanhas de conscientização); estrutura (um estúdio de gravação de música, um selo musical independente, uma loja de comércio justo, produção de camisetas, um centro gráfico, uma escola comunitária); e ética interna de gestão (empoderamento dos cooperados e auto-sustentabilidade, entre outros)” (ibid.). Mais uma vez ela se ajusta melhor nas abordagens centrada em pessoas e modernidades alternativas.
A Rede já tem alcançado alguns impactos de curto prazo, e já tem planejado seus impactos de médio e longo prazos como se segue: no curto prazo, ela já alcançou a “união de indivíduos e coletivos, todos previamente ativos na sociedade, para fazer suas ações mais confiáveis, interligadas e solidárias”; no médio prazo, ela está tentando fazer todas as ações auto-sustentáveis em cada comunidade”; e no longo prazo, “libertação econômica através de novos tipos de organização para sustentabilidade”, como parte de seus objetivos (ibid.).
Galo de Souza, membro fundador da Rede de Resistência Solidária e do Coletivo Êxito d’Rua, diz que “nós precisamos produzir soluções que tragam o oprimido para ser cooperante da sua própria libertação; nós precisamos produzir comida, informação, roupas, filmes, idéias e ideais comunitários, refletindo nós mesmos. A comunidade precisa consumir o que ela produz lá, o que é expressado, sentido e pensado para sua libertação” (de Souza, 2005:2).
Ele está se referindo à “libertação comunitária” (ibid.) e a novas formas de sistema econômico local unido com cultura local e autoconsciência. A base é o sistema de economia solidária local como uma alternativa ao neoliberalismo. O sistema de economia solidária é dito como uma alternativa muito boa para a emancipação e o crescimento de economia local, baseada em valores de cooperação e solidariedade na produção. Parafraseando Williams, Aldridge e Tooke (2003:154-155), a economia solidária é uma maneira de se enfrentar a exclusão social, sendo uma alternativa tanto para o setor informal como para o formal da economia convencional.
Está claro que através deste tipo de iniciativa, organizações de base comunitária e pessoas estão tentando encontrar seu caminho próprio frente a grande desigualdade existente nas cidades brasileiras. Elas estão trazendo esperança não apenas para si mesmas, mas para muitos outros nesse mar de medo que a vida cotidiana das pessoas marginalizadas se transformou.
Esperança! Esse é o mais importante aspecto sobre as abordagens alternativas direcionadas para o desenvolvimento. Pessoas marginalizadas precisam de esperança para continuar lutando por uma vida melhor.
O desenvolvimento alternativo emergiu entre ondas de medo durante a Guerra Fria. Dos movimentos sociais para políticas, de sentimentos para a literatura científica, ele vem encontrando o seu caminho através das marés de pessimismo e medo da história recente. Da Guerra Fria para o mundo neoliberal de hoje, o desenvolvimento alternativo está abrindo possibilidades de um futuro melhor para aqueles que acreditam que existe alguma coisa errada no mundo, na maneira como ele tem sido organizado no último século.
Socialmente, o desenvolvimento alternativo trás voz, poder e emancipação para as pessoas decidirem sobre seu próprio futuro. Além disso, ele aponta para justiça social, direitos humanos, cidadania, meio ambiente e sustentabilidade como questões importantes a serem colocadas na agenda. Economicamente, ele está desenhando alternativas concretas e inclusivas para o sistema econômico convencional, especialmente no nível local. Entretanto, o caminho a ser trilhado é extremamente longo, tão grande quanto os poderes internacionais do neoliberalismo. Politicamente, a democracia participativa está começando a desafiar a democracia representativa no debate sobre a qualidade do nível de democracia. Moralmente, ele é fortemente fundamentado e comprometido com as pessoas. Além do mais, não é uma singularidade em si mesmo, uma vez que ele não propõe nenhuma receita milagrosa de desenvolvimento. Academicamente, ele tem sido um espaço promissor para novos pensamentos e para questionamentos do presente. Contudo ele ainda precisa de mais espaço e reconhecimento. Em termos práticos, ele já tem um grande número de adeptos em todo o mundo. Mesmo sem necessariamente estarem conscientes do assunto, eles estão propondo, implementando e alcançando novas práticas, comportamentos, relações e esperança para a sociedade. No todo, desenvolvimento alternativo é uma maneira de promover a tão esperada revolução popular sem armas.
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[3]OMC: Organização Mundial do Comércio – http://www.wto.int/
[4]BM: Banco Mundial – http://www.worldbank.org/
[5]ONG: Organização Não Governamental
[6]GCTL: Grupos de Comércio e Trocas Locais – http://en.wikipedia.org/wiki/LETS
[7]GAM: Grupos de Ajuda Mútua
[8]Por coletivo se entende todos os tipos de organizações de base ou comunitárias.
[9]De acordo com o website City Population ©, em 01 de Julho de 2005: http://www.citypopulation.de/Brazil.html
[10]PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento: http://www.pnud.org.br/ (website brasilerio)
[11]O website só funciona com com uso de letras maiúsculas para o termo “ENCYCLOPAEDIA”.
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